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Antes de se tornar uma religiosa oficialmente, a jovem que viria a se notabilizar como Irmã Dulce já tinha iniciado seu trabalho social nos anos de 1930. Há mais de 90 anos o Brasil era ainda mais pobre e desigual comparado aos dias de hoje. Tinha também um inconveniente que já não é tão grande atualmente: na mentalidade dos brasileiros do Sul e Sudeste, as regiões do Norte, Nordeste e Centro Oeste simplesmente não existiam.

Principalmente nas áreas do serrado e do sertão havia, sim, uma enorme população de brasileiros com suas peculiaridades. Sua comida, seu ritmo, suas canções, cores, crenças e cultura continuam sendo fascinantes e algo bem destacado das áreas mais ricas desse imenso país. A história deste artigo é uma prova disto.

Um encontro inusitado

Irmã Dulci, a santa sanfoneira

Enquanto jovem  Maria Rita de Souza dava os primeiros passos rumo à sua vocação, aliviando o sofrimento dos menos favorecidos com amor e caridade, cangaceiros agiam nas cidades e no sertão baiano, espalhando terror e medo. Em 1939 um fato curioso aconteceu: a freira que se tornaria a primeira santa brasileira da Igrej

a Católica se deparou com o jovem que entrou para a história como o bandido mais temido até antão, o Lampião.

O inusitado encontro aconteceu pela primeira vez no presídio Engenho da Conceição, quando ele somava 21 anos, e a freira, 23. Na década de 1950 as instalações eram conhecidas como a ‘Penitenciária da Coreia’, devido às condições que refletiam o cenário da guerra que assolava o país asiático. Este local pavoroso era um dos recantos ideais para Irmã Dulce visitas semanais levando conforto espiritual, alimentos e remédios aos detentos.

A sanfona de Dulce

Durante sua missão de caridade a freira ia para esta e outras penitenciárias com a sua sanfona. Ela havia aprendido a tocar na juventude, e decidiu que a musicalidade serviria de alento aos detentos no pátio. Para ela a arte era um meio de regeneração. “Buscava resgatar a dignidade dos presos com a música”, diz Osvaldo Gouveia, chefe da Assessoria de Memória e Cultura das Obras Sociais Irmã Dulce.

Ocorre que o presidiário famoso Lampião, na época também conhecido como ‘Volta Seca’, também gostava de sanfona. Foram as melodias que aproximaram Irmã Dulce dele, principalmente o forró.

Irmã Dulci, a santa sanfoneira  Caridade, sanfona e Evangelho

Não foi somente a musicalidade única da sanfona nordestina que marcou esse contato. Irmã Dulce esperava que o Evangelho transformasse Lampião.

Vale lembrar que com apenas 21 anos Lampião já era um criminoso conhecido, tendo assassinado várias pessoas – inclusive policiais. Era famoso tanto pela sua capacidade de fuga como pela crueldade com os inimigos. Mesmo assim tudo indica que sua humanidade ainda guardava algo de sensível.

Segundo ele mesmo narraria numa entrevista dada ao jornal carioca Diário da Noite, ela chegou a interceder por ele junto ao poder político da época para que reduzissem sua pena de 145 anos de detenção para 20. Isso ocorreu, de fato, pelas mãos do então presidente da República Getúlio Vargas, que concedeu a redução de pena a Lampião como indulto.

Talvez por esse episódio, o cangaceiro se referiu à irmã Dulce, neste mesma entrevista, como “uma figura nobre” e uma “santa criatura”.

O calar da sanfona de Dulce nos presídios

Irmã Dulce continuaria sua rotina missionária nos presídios até 1954, quando foi proibida de frequentar a ‘Penitenciária da Coreia’. Fontes oficias notificaram a imprensa de que teriam encerrado o projeto da Irmã por que ela era uma jovem pura e não mereceria presenciar os horrores da prisão. O episódio foi registrado pelo jornal baiano A Tarde, que criticou a decisão, afirmando que encerraram o projeto para aumentar o sofrimento dos detentos.

Novos rumos de Dulce

Cinco anos depois da proibição a freira fundou as Obras Sociais da Irmã Dulce, projeto ao qual se dedicou integralmente até morrer em 1992. O carinho do público nordestino pela freira se tornou mundialmente famoso na ocasião da primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil. Diante de uma multidão de dezenas de milhares de fiéis o Papa mandou que a Irmã – já na época sua amiga – subisse no palco e ficasse junto á sua comitiva. Até então ela estava junto ao povo.

As imagens são impressionantes! Assim que Irmã Dulce, atendendo ao pedido de João Paulo II sobe ao palco, ela é ovacionada pela multidão por quase 15 minutos ininterruptos. Cartazes com mensagens de carinho e canções são entoadas em reconhecimento ao seu trabalho de caridade. O Papa silenciou e sorriu, enquanto apenas acompanhava a cena.

Já Lampião, que morreu tragicamente em 1997 perseguido pelas forças nacionais, chegou a se casar e teve filhos. Depois de solto foi aceito, com muitas  dificuldades, para trabalhar na estrada de ferro Leopoldina, em Minas Gerais. Mas, não durou muito sua tentativa de se encaixar na sociedade. Pouco tempo depois ele estava de volta ao cangaço.

Em seus 20 anos na cadeia, conseguiu juntar apenas oito contos de réis trabalhando na prisão. Ao ser solto, conforme narra o livro Lampião na Bahia, ele recolheu o dinheiro e fez tal qual faria Irmã Dulce: doou tudo aos pobres.

Canonização da sanfoneira

Num dia de domingo, aos 13 de outubro de 2019, a freira foi canonizada pelo Papa Francisco, em cerimônia realizada no Vaticano, durante o Sínodo da Amazônia. Assim surgiu a Santa Dulce dos Pobres, a primeira mulher brasileira a ser declarada santa pela Igreja Católica.

Aquela que tocava sanfona para aliviar a dor dos detentos finalmente foi reconhecida pela igreja. Seu imenso amor à causa da fé, seu infinito carinho aos mais pobres e sua sanfona jamais serão esquecidos!

Imagens gentilmente cedidas por: Memória e Cultura das Obras Sociais Irmã Dulce

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